O ANO ERA 2006

O mundo evoluía rápido, tecnologias sendo desenvolvidas, política fluindo e tantas coisas, mas ela era pequena, apenas uma criança que chegara aos seus oito anos de idade, cujo passatempo maior – quando não estava na escola – era brincar com primos e amigos que residiam no mesmo quintal.
Adorava a boneca e as panelinhas. Como era inocente aquela criança. Sorria, corria, pulava, se agitava, chorava, se machucava, levantava e fingia que nada havia acontecido. Mas como o mundo é cruel, não é verdade? Quem dera se todas as pessoas deste mundo tivessem a mesma inocência de uma criança.
Lá vem o senhor Raimundo, irmão de dona Silvia. Todo atrapalhado, se aproveitando da situação e do vazio da residência, chama a criança de canto.
- Oi, me chamou?
- Sim... Você está muito bonita hoje.
- Obrigada. Vou voltar a brincar.
- Não, espera um pouco. Vem cá. Abaixa o short. Quero te ver.
- Mas pra que? Eu não quero...
- Ninguém está vendo. Só eu vou ver.
E sem reclamar, mas com medo, ela obedeceu. Ele, por sua vez, sem medo de qualquer tipo de repreensão, a tocou. “Esse será nosso segredo”, ele disse. Chegando em casa, a mãe notou uma atitude diferente, questionou a filha pelo excesso de silêncio, e ela contou. A mãe, horrorizada, entrou em pânico e chamou o marido. Em uma noite, após o culto costumeiro de domingo, fizeram uma reunião com o respectivo senhor Raimundo e sua família. A pequena não entendeu, mas sentiu o desconforto da situação.
Meses depois, já havia esquecido e seguiu brincando. Os amigos já eram outros, mas a diversão era a mesma. Os meninos eram legais, mas falavam coisas obscenas que incomodavam a criança. O pai, um tal de Marcelo, convidou as crianças para entrarem dentro de casa para ver desenho. Os meninos foram para o quarto, mas para ela o tratamento foi diferente: a levou para o banheiro e pediu que levantasse a camiseta. Por medo e falta de conselhos e instruções sobre a vida, a garota fez o que ele pediu.
Depois disso, foi levada pro quarto, dominada por um homem que era três vezes maior que ela, que causou medo, o terror da possibilidade de acontecer algo pior, que num ato violento tentou força-la a fazer coisas das quais ainda prefere se calar... até hoje.
Ela cresceu. O medo, o nojo, os traumas. Hoje já não é mais tão inocente, a sexualidade ainda é um tabu, e a insegurança tomou conta da forma mais brutal, atrapalhando os momentos, as lembranças, seus relacionamentos, a caminhada livre pela rua ou a simples conversa em grupo.
Poderia ser com a vizinha, uma amiga, uma professora, uma loira, uma negra, uma gorda, uma magra, alta, baixa, cadeirante ou qualquer outra pessoa do mundo, mas essa é a minha história. Meu caso é 1 entre os mais de 15 mil anuais que são denunciados pelo “disque 100” Brasil (só em 2016). E só no meu círculo de amigas, pelo menos 5 já passaram pelo abuso sexual infantil, seja por desconhecidos ou familiares, como pai e irmão.
Essa é apenas uma estatística, sem controle ou qualquer probabilidade de mudança. Até quando será assim? É difícil ter fé na humanidade, mas eu não quero me calar e incentivo que mais crianças, mulheres e idosos denunciem cada vez mais os casos de abuso e exploração sexual. Não somos objetos e merecemos mais do que um simples ato de compaixão. Merecemos o respeito, a segurança, o direito de ir e vir, de expressão, liberdade de escolha, gênero e de pensamento. Acima de tudo, merecemos a nossa dignidade.
Texto: Quezia Barbosa.
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